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BAIANASYSTEM: NÃO É APENAS UM SHOW

Você já foi em um show do Baiana antes?, alguém perguntou, quando entrei pelo estacionamento da Fundição Progresso. Não, respondi. 

Então se prepara. 

Não é como se eu nunca tivesse escutado aquilo antes. Àquela altura, já tinha fotografado uma quantidade razoável de shows para saber que, na maioria dos casos, a expectativa criada nem sempre corresponde ao espetáculo em si. Não que o espetáculo não seja bom - surpreendentemente bom, às vezes - mas ele é, afinal de contas, um show. Você geralmente sabe o que esperar de um show, seja ele do Alceu Valença ou do Rappa.

No caso do BaianaSystem, não se tratava de um show. Era algo além. Mas eu descobriria aquilo apenas algumas horas depois. Por enquanto, tentava entender o motivo pelo qual todos ao meu redor que já tinham ido em um show deles me diziam para me preparar - não da forma como eu estava acostumado a ouvir, mas sim como se eu estivesse prestes a ser enviado a uma zona de guerra.

Com a câmera no pescoço e uma lente sobressalente guardada em uma pochete, me dirigi ao pit - uma área localizada logo abaixo do palco, separada um metro do público por grades de ferro, onde fotógrafos podem circular e se acotovelar pelo melhor clique e seguranças se posicionam para garantir que tudo ocorra bem e nenhum fã tente pular no palco e agarrar o vocalista no meio do show (por exemplo). 
Tá preparado?!, disparou outro fotógrafo, posicionando sua lente de frente para o palco escuro. 

Preparado pra quê?, perguntei, ingênuo.

Você já foi em um show do Baiana antes?. Não me recordo ao certo quantas vezes ouvi isso naquela noite, mas foi o suficiente para entender seu significado retórico antes que as luzes se acendessem e Russo Passapusso, Marcelo Barreto, Marcelo Seko e Filipe Cartaxo subissem no palco ao som de sintetizadores sinistros. Em poucos segundos, entendi o significado real da frase. Depois de alguns minutos, compreendi que, para fotografar o show do BaianaSystem, primeiro eu deveria sobreviver ao show do BaianaSystem.

Não me comuniquei mais com outros fotógrafos naquela noite, exceto por algumas trocas de olhares. Isso é sério?!, perguntei, com as sobrancelhas franzidas e os olhos arregalados, para uma fotógrafa que havia me dito para me preparar. É, bicho. Eu avisei, ela respondeu, através de uma expressão que seria indescritível por meio de palavras.

A questão central é: o público não estava apenas feliz, curtindo, pulando, como geralmente fazem em shows incríveis. Não. O público havia simplesmente assumido um outro estado de existência, mais primitivo; havia se tornado uma massa amorfa, furiosa e ensandecida. Aquilo não era um show: era uma experiência corpórea e catártica; uma grande terapia coletiva reichiana

Russo Passapusso não era apenas um cantor: ele era um encantador de massas, um agitador de multidões. A cada vez que pegava o microfone e anunciava que a próxima roda deveria ser ainda maior do que a anterior, eu achava que aquilo não seria possível, ou que não sobreviveríamos. Ledo engano. Não apenas sobrevivemos: emergimos. Entramos em contato com o nosso eu mais profundo e animalesco através de espasmos de adrenalina orquestrados por aquele baiano barbudo, de chapéu e óculos escuros redondos. Após essa grande catarse coletiva, emergimos de volta para a realidade com uma única certeza: estamos mais vivos.

Depois, descobri que a proposta do show “Rio Bahia Pirata” era justamente trazer a experiência dos shows do Baiana no Pelourinho, na Bahia, para o Rio de Janeiro. Nunca assisti - muito menos fotografei - um show deles no Pelourinho, mas, a julgar pelo estado de êxtase em que não apenas eu, mas todos os que estiveram presentes na Fundição Progresso na noite daquele 19 de janeiro, deixaram o lugar, acho que o Baiana, no mínimo, chegou perto.

Há boatos de que eles voltarão para a Fundição Progresso, em breve.

É bom estar preparado.

Texto e fotos: Luiz Franco