BLOG

Comer como ato político - A relação entre o cozinhar e a responsabilidade agroecológica.

Por Pâmela Thompson e Bruno da Silva

A 6ª edição do Plante Rio trouxe debates sobre produção de alimentos, hábitos alimentares e questões socioambientais para apresentar caminhos que minimizem nosso impacto no planeta e promovam práticas sustentáveis. Os visitantes do festival puderam participar de debates e oficinas, conhecer pequenos produtores e envolver-se em experiências culinárias imersivas.

O almoço realizado no primeiro dia do evento ocorreu na ESDI e foi preparado pelos Mestres e Mestras da Cozinha das Tradições, um programa de pesquisa-ação, formação e extensão em rede que celebra e valoriza a cultura alimentar e tecnológica dos povos e comunidades tradicionais do Brasil. A Cozinha das Tradições é um legado do Congresso Brasileiro de Agroecologia (CBA). Os fogões, utilizados durante os preparos das refeições, e outras estruturas da cozinha foram construídos durante o CBA de 2023. 

O cardápio do almoço, criado através de um mapeamento de receitas e memórias, contou com a valorização de pratos da culinária tradicional, carregados de ancestralidade como peixe assado na folha de bananeira, taioba e canjiquinha. Parados sobre o solo molhado de uma lagoa aterrada, cozinheiras e participantes conversavam: “É receita da minha vó, que faço desde pequenininha”. 

Antes da refeição, o Mestre Marcelo do Quilombo do Salgueiro puxou um canto para abençoar a comida feita pelas Mestras. A musicalidade transformou o ato de comer em um ritual, demonstrando a relação respeitosa nos processos envolvidos, contrariando as formas de consumo desenfreadas estimuladas pelo capitalismo. As reflexões passaram por temas como a soberania alimentar, cuidado e preservação ambiental e a importância do alimento como forma de sustância. Palavras que acalentaram os ouvidos e nutriram os corações. Em entrevista, a Mestra Eliane Ramos, do Quilombo Santa Rita do Bracuí (Angra dos Reis, RJ), afirmou que existe um movimento de retomada da culinária tradicional e que se sente muito feliz ao ver o fim do estigma sobre alguns alimentos, como o cuscuz e a puba, que há anos marcam presença na cozinha ancestral.

Também na sexta-feira, o café da tarde foi feito pelo Coletivo Mulheres em Ação da Penha em parceria com o “Centro de Integração na Serra da Misericórdia”, que atua com soberania alimentar, educação popular e cidadania no Complexo da Penha. A refeição, afetiva e agroecológica, reafirmou o compromisso do Plante Rio de destacar grupos que demonstram que a alimentação consciente é uma solução possível.

No segundo dia do evento, a experiência gastronômica continuou com a Feira Agroecológica, que reuniu pequenos empreendedores comprometidos com a sustentabilidade e o nosso futuro no planeta. Entre ingredientes, sinfonias e aromas, a participação da Alimentamente, durante a manhã, trouxe a oficina “Alimentando Ideias” com o propósito de pensar, dialogar e instigar a cozinha enquanto ferramenta para a mitigação da crise climática que enfrentamos. A elaboração cooperativa da receita do hambúrguer de feijão fradinho e abobrinha permitiu que as participantes vivenciassem uma experiência inesquecível, relembrada a cada mordida.

O almoço de sábado foi preparado pelas agricultoras do GT Mulheres da Articulação de Agroecologia da Serramar, outro grupo que defende uma gastronomia cuidadosa e responsável. O cardápio contou com uma variedade de pratos, como feijoada e strogonoff de palmito. Uma mistura do tradicional com a reinvenção. 

Entre uma roda de conversa e outra, a Fundição Progresso foi preenchida por diversas identidades e culturas. Açaí tradicional, meles de abelhas nativas, acarajé, gelato de base agroecológica, orgânica e funcional representavam juntos uma relação harmônica e sustentável entre o plantar, colher, cozinhar e consumir. Os sorrisos e deleites dos visitantes demonstraram a completa satisfação que sentiram nesses dois dias de evento, além da confirmação de que a comida é fator principal de sustância para resistir e enfrentar os desafios socioambientais.

Da Redação Plante Rio

Sob supervisão de Clara Lugão e Matt Vieira 

Foto: Luiza Regina