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REFLORESTAR O IMAGINÁRIO: Arte e Ativismo Ambiental
No início da tarde do 2° dia de Plante Rio, após o almoço agroecológico, o Espaço Verde foi lugar para sonhar novos tempos a partir da Roda de Conversa "Arte e Ativismo Ambiental". A roda buscava estabelecer relações de simbiose entre a arte, a cultura e a mobilização social. A fala inicial da artista-pesquisadora Izabel de Barros Stewart, mediadora do conversa, sintetiza essa ideia: a arte atua como enxada de novos imaginários.
Izabel abriu o bate-papo para os convidados, que incluíram Marcele Oliveira, produtora cultural e comunicadora pela UFF (Universidade Federal Fluminense), ativista climática e diretora executiva da Perifalab; Ricardo Cabral, artista da cena formado pela Escola Técnica Estadual de Teatro Martins Pena, Doutor em Artes da Cena e professor de Direção Teatral pela UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro); e Ernesto Neto, artista plástico com formações acadêmicas pelo Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro e pela Escola de Artes Visuais do Parque Lage.
A comunicadora Marcele Oliveira iniciou sua fala traçando a origem de seu ativismo ambiental, que partiu da problemática do racismo ambiental. Cria do bairro de Realengo, Zona Oeste do município do Rio de Janeiro, a ativista inflama ao dizer que vivia longe do centro da cidade para saber de iniciativas como o Plante Rio, que fornece um ecossistema de debates acerca da cultura e do meio ambiente, mas que vivia perto das sintomáticas do racismo ambiental, aferindo sua existência. Assim, ela apontou a inquietação de perceber a ruptura da paisagem verde da Zona Sul para o ambiente cinza e cimentado da Zona Oeste.
Ela continuou ao apontar que a maior parte da população do município do Rio de Janeiro se concentra na Zona Oeste e que, portanto, é o habitat de maior concentração de conhecimento ancestral da cidade. Assim, teceu a relação entre território-ambiente e cultural local. Intrinsecamente interligados, a arte e a cultura se insere como mecanismo de resistência do território, que intoxica o sistema dominante, revelando seu potencial de criação de um ecossistema de debate transmutador, subvertendo a opressão e a amnésia. Nesse sentido, a ativista citou o Parque Realengo como uma resistência, que partiu da mobilização popular, que segue lutando por seu território e cultura local. O sonho coletivo de ter áreas verdes na Zona Oeste começou em 2004, com o movimento 100% Parque Realengo Verde culminando na Ocupação Parquinho Verde em 2019. A partir da Agenda Realengo 2030 a construção da proposta foi materializada pela implementação do Parque 100% Verde, a primeira proposta de política pública da agenda do bairro. Toda essa linha do tempo construiu a história de luta da sociedade civil do território, que disputou a construção do Parque. Assim, Marcele expôs que o ativismo não é um escolha, e sim que nasce da urgência de sobrevivência de uma comunidade e cultural local.
“O céu tá caindo”, Ricardo Cabral apontou citando Davi Kopenawa Yanomami. E afirmou que retirar toda matéria orgânica do solo pela exploração predatória do petróleo é extinguir o firmamento do próprio céu. Na cosmovisão Yanomami, o céu é uma parte do ecossistema da floresta, um componente vivo que deve ser protegido para assegurar a continuidade da vida e da cultura. Assim, o artista da cena propôs a arte para segurar o céu. Esta arte nasce de emaranhados de pesquisa e trabalho que buscam integrar quem segura o céu, pessoas que estão em interação direta com o ecossistema como: catadores de lixo, pescadores, educadores e biólogos. Ressignificando a diferença, que é posta como danosa pelo povo da mercadoria, conceito desenvolvido por Davi Kopenawa para descrever a sociedade ocidental que desvaloriza a vida e a natureza. Nessa perspectiva, a diferença é germinadora. Ricardo Cabral citou “Emaranhada”, um de seus trabalhos que acompanha o encontro entre artistas de teatro, uma cooperativa de catadoras de lixo e uma ONG, Organização Não-Governamental, que atua na conservação de manguezais da Baía de Guanabara, para partilhar entre seus trabalhos e modos de fazer, abrindo espaço de encontro e de mútua aprendizagem. O grupo de artistas viveu um dia de trabalho com a organização, colaborando com o trabalho dos catadores e os artistas também promoveram um dia coletivo de trabalho para os catadores, a partir das práticas das artes da cena – práticas corporais e vocais, e jogos teatrais e de contação de histórias. “Mistão”, consiste de uma peça de teatro e reciclagem que dá continuidade às colaborações entre o teatro e a cooperativa de catadoras de materiais recicláveis que opera a 1° Central de Triagem do Programa de Coleta Seletiva do Rio de Janeiro. Os trabalhos apresentados pelo ator buscam semear a arte da cena como modo de aprendizado que parte do sensível, energizado pela diferença e pelas multidisciplinares, criando novas linguagens de compreensão do meio ambiente.
A arte surgiu como um veículo de continuidade do corpo humano ao corpo da terra, narra Ernesto Neto. Um organismo de reencontro ao orgânico, voltando a narrativa brasileira para a ancestralidade. Neto reflete a falácia da cultura ocidental no Sul Global, que perante a ordem mundial ainda é uma região de submissão e exploração em desenvolvimento. Assim, aponta o descompasso entre a cultura nativa brasileira não ocidental e educação brasileira, baseada em cosmovisões eurocentristas. Ao se questionar quanto a nossa identidade nacional chega a conclusão: seremos brasileiros. Se apropriar da sua identidade brasileira por meio da arte extingue a lógica de segregação da natureza da cultural colonial de subordinação e retoma à cultura latino-americana de valorização da vida e da biodiversidade. Assim, relembrou sua exposição “Dengo” , apresentada no Museu de Arte Moderna de São Paulo em 2010, que homenageia os camelôs do Brasil, parte do imaginário brasileira que no período da exposição sofria represálias na cidade do Rio de Janeiro. Lembrou a seguinte frase exposta: Por que não sermos o que somos?. E afirma: “Os camelôs são os meus mestres, aprendo muito com o camelô”.
Ernesto continuou a expor a herança colonial da cultura brasileira a partir do significado da Jibóia, que para muitos povos originários, incluindo o povo Huni Kuin da Amazônia brasileira, está associada à sabedoria e à transformação espiritual. Enquanto no cristianismo, está relacionada à tentação e ao mal, e que comanda o imaginário brasileiro. “Le La Serpent”, exposição de Neto exibida na Le Bon Marché Rive Gauche, uma das mais tradicionais lojas de departamentos de Paris em janeiro de 2025, subverte a narrativa ocidental que lê a serpente como um elemento maléfico e retoma à ideia de sabedoria e regeneração presente nas cosmogonias mesoamericanas. Dessa forma, se entende que a arte que reafirma a cultura local nativa é ferramenta de ativismo que subverte a lógica colonial e tece uma ecologia de imaginários de respeito e integração ao meio e a biodiversidade, possibilitando o nascimento de novas narrativas que restaure a simbiose do ser humano com o ecossistema e a biodiversidade.
Se encaminhando para o final da roda de conversa, Izabel Stewart indagou à Marcele suas expectativas para a COP 30, que acontecerá entre os dias 10 e 21 de novembro, na cidade de Belém. Além disso, questiona: qual o papel da juventude na Conferência das Nações Unidas sobre as Mudanças Climáticas (COP). A comunicadora narrou com entusiasmo o engajamento de sua geração nas problemáticas ambientais e fez o apelo: todas as pautas passam pelo meio ambiente. Ainda alerta a urgência de se agir a partir da justiça climática, protegendo quem protege a natureza seguindo a lógica da compensação e do bem viver.
Diante das trocas de saberes e obras enraizou-se o papel preponderante da cultura e da arte no chamado para mobilização popular nas problemáticas ambientais e do clima. A ativista Marcele reafirmou que nosso papel é apoiar a juventude em suas micro-revoluções do cotidiano em nome de polinizar novos imaginários que sonham com um mundo de justiça climática e sincronia com o meio ambiente e a biodiversidade. O reflorestar do imaginário virá ao mundo a partir da arte e do ativismo ambiental.
Redação Plante Rio:
Matéria de Milena Albuquerque
Fotos de Milena Albuquerque
Supervisão de Clara Lugão e Iago Souza