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Quando o lixo vira arte: "Mistão" transforma saberes da reciclagem em teatro

Plástico, papelão, garrafas, sucata e outros materiais que normalmente seriam descartados ganham novas formas no palco. Em "Mistão", espetáculo do Teatro Caminho, a reciclagem deixa de ser apenas um tema e passa a fazer parte do próprio processo de criação teatral.
Apresentado dentro da programação do Plante Rio, o espetáculo nasceu do encontro entre artistas e catadoras de materiais recicláveis e estudantes. Durante o processo, que se estendeu por anos, os grupos compartilharam conhecimentos e descobriram juntos como transformar experiências do cotidiano em uma linguagem artística.


Em entrevista ao Plante Rio, as participantes do espetáculo contaram como surgiu a ideia, por que a reciclagem se tornou o eixo da criação, como os materiais são preparados para chegar ao palco e o significado da expressão que dá nome à peça. 

Uma pergunta diante do colapso climático


A ideia de criar "Mistão" começou a partir de uma inquietação dentro do próprio grupo teatral: o que o teatro pode fazer diante do colapso climático? Uma das participantes explica que essa pergunta foi fundamental para o início do processo. “Surgiu no grupo uma pergunta: o que o teatro pode fazer? A gente está entendendo que está no colapso climático.” A partir dessa reflexão, o grupo passou a procurar uma forma de contribuir para essa discussão por meio da arte. A resposta não seria encontrada apenas dentro do teatro. Era preciso sair dele, conhecer outras realidades e aprender com quem trabalha diretamente com os resíduos produzidos pela sociedade. Foi então que começou a aproximação com a cooperativa de catadoras.


“A gente passou três anos na cooperativa, mas mais no lugar de aprender, de querer aprender o trabalho delas e também trocar esse conhecimento do que a gente sabe". O processo foi baseado justamente nessa troca. De um lado, o conhecimento teatral; do outro, a experiência cotidiana das catadoras com os materiais recicláveis. “A gente poderia, talvez, trocar ensinamentos, ver uma forma de olhar para isso que fosse nova, que fosse fresca, que trouxesse algumas respostas não definitivas para essa pergunta que a gente estava se fazendo.”
A criação, portanto, não nasceu pronta. Foi sendo construída ao longo dos encontros. “A gente vai realmente descobrindo juntas o que era”.

Por que a reciclagem?


A escolha da reciclagem como eixo central está diretamente ligada à pergunta que deu início ao projeto. Se o teatro poderia contribuir para a discussão sobre a crise ambiental, a aproximação com as catadoras permitiu que essa questão fosse trabalhada a partir de uma experiência concreta. Em vez de falar sobre reciclagem de maneira distante, o espetáculo parte do conhecimento de mulheres que trabalham diariamente com os materiais descartados. O encontro também provocou uma mudança na forma de olhar para esses objetos. Aquilo que normalmente aparece como lixo passa a ser observado como possibilidade de criação. A proposta é construir uma linguagem em que os materiais não estejam apenas representando a reciclagem, mas sejam efetivamente incorporados ao fazer teatral.


Do cotidiano para o palco

Para chegar à cena, os materiais passam por um processo de coleta, separação e higienização. Segundo uma das participantes, parte dos materiais é recolhida nas próprias casas e também com a ajuda de moradores: “Cada um vê o que geralmente tem na sua casa. Agora estamos pedindo para os moradores, de vizinho para vizinho, guardar os materiais”. Depois de recolhidos, os objetos precisam ser preparados.
“Nós limpamos, trazemos tudo". A higienização é uma etapa importante porque o material utilizado na criação continua fazendo parte do ciclo da reciclagem. A preocupação é garantir que, depois de utilizado no espetáculo, ele possa seguir para a destinação adequada. Uma das participantes explica: “A gente higieniza para, na hora do descarte, quem vai receber esse material receba dessa forma". 


A prática também funciona como uma forma de aproximar o público de uma etapa do trabalho das catadoras que muitas vezes passa despercebida. Antes de chegar ao consumidor, ao descarte ou ao palco, cada material possui características próprias e precisa ser reconhecido e separado. 

O que significa “bater mistão”?


Existe uma expressão que ajuda a entender tanto o trabalho das catadoras quanto o próprio nome do espetáculo: “bater mistão”. Durante a entrevista, elas explicam que o processo envolve justamente lidar com os materiais que chegam juntos e realizar a separação: “Separar materiais? Eu tenho vários tipos de materiais mesmo". Os materiais chegam misturados. A partir daí, começa o trabalho de identificar o que é cada coisa e encaminhá-la para o lugar correspondente. “Vem tudo junto, então a gente separa tudo".  É nesse contexto que aparece o “mistão”: um material que reúne diferentes tipos de resíduos. “Todos se misturam no final de tudo. Tira este, tira aquilo, tudo vira um...”
A expressão também aparece relacionada à capacidade de receber diferentes materiais: “Ele recebe tudo.” E, em uma definição que acaba ganhando um significado maior dentro da peça: “Aceita todo mundo". Essa ideia de mistura ajuda a compreender a escolha do nome "Mistão".

O espetáculo reúne diferentes materiais, mas também diferentes pessoas e saberes. De um lado, estão as atrizes e o conhecimento da linguagem teatral. Do outro, as catadoras e a experiência acumulada no trabalho com os resíduos. O resultado desse encontro é uma criação que nasce justamente da mistura. 


Um encontro de conhecimentos
Mais do que transformar lixo em elemento cenográfico, "Mistão" transforma o próprio processo de reciclagem em parte da experiência artística.
A peça é resultado de um processo em que as participantes precisaram aprender umas com as outras. O teatro encontrou a cooperativa, a cena encontrou a triagem e os materiais descartados encontraram novas possibilidades de existência. A experiência também mostra que falar sobre meio ambiente não significa apenas discutir grandes conceitos. Pode significar olhar para aquilo que está diariamente ao nosso redor:
uma garrafa, uma embalagem, um pedaço de papelão ou qualquer outro objeto que, depois de utilizado, parece não ter mais valor. No "Mistão", esses materiais ganham outro destino.

REDAÇÃO PLANTE RIO:

Matéria de Sofia Negrão 

Fotos de Eduardo Mendes 

Supervisão de Clara Lugão e Maria Clara Paiva