BLOG
Compostagem urbana: como fechar o ciclo do lixo orgânico, segundo quem faz isso todos os dias
A oficina "Compostagem em Espaços Urbanos com Terra Orgânica", com Gustavo Jubiraci e Régis Scaggiante, no Jardim de Chuva, terminou com as mãos sujas de terra e um recado que ficou martelando: compostar não é sobre esconder o lixo, é sobre olhar pra ele. Régis começou a compostar ainda na faculdade, através de projetos acadêmicos. O que era prática pessoal virou hábito levado para o próprio bairro, primeiro
sozinho, depois para mais quatro pessoas, depois mais, e mais, até o trabalho ficar grande demais para uma pessoa só. Foi aí que surgiram parceiros dispostos a transformar aquilo em algo sustentável financeiramente: hoje existe uma central de processamento de resíduos orgânicos que também ensina em outras localidades, captando recursos para manter a operação rodando.
Apartamento pequeno não é desculpa
Para quem mora em espaços pequenos e acha que compostagem é complicada demais, Gustavo é direto: o processo é biológico, tem seres vivos envolvidos, e isso pede atenção mas não é difícil. Com a técnica certa e os materiais corretos, o manejo fica simples e até gratificante. "Não vai dar cheiro, não vai dar bicho, vai ser rápido, vai ser eficiente" foi a promessa dele para quem está começando.
Biofertilizante não é chorume
Um ponto que precisamos esclarecer: o líquido que escorre de uma composteira bem cuidada é biofertilizante, um material orgânico sem contaminantes, bem diferente do chorume, que vem do lixo misturado e carrega metais pesados. O biofertilizante pode (e deve) ser usado nas plantas, mas sempre diluído na proporção de uma parte de biofertilizante para dez de água e regando a cada três a cinco dias, ou aplicado nas folhas. O único cuidado extra: parar de aplicar alguns dias antes de colher, se for planta alimentícia.
O erro mais comum
Segundo Gustavo, a maioria dos erros vem da falta de orientação: as pessoas usam pouco material seco em relação ao orgânico, o que gera cheiro e larvas, isso costuma ser o motivo pelo qual muita gente desiste no meio do caminho. A dica é simples: serragem de madeira não tratada ajuda a equilibrar essa proporção.
Um aplicativo para dar lastro à rede
Outra novidade apresentada foi um aplicativo, ainda só para Android e desenvolvido para registrar volume e frequência de compostagem. Qualquer pessoa pode se cadastrar gratuitamente, mesmo sem fazer parte de nenhuma iniciativa formal. O objetivo é gerar
dados que comprovem o trabalho sendo feito, atraindo apoiadores e recursos para sustentar o crescimento da rede.
Fechamento de ciclos
Ao final, a reflexão foi maior do que a técnica: para Gustavo, a compostagem existe para fechar ciclos que a economia linear, extrair, produzir, consumir e descartar, insiste em manter quebrados. E ele destacou o papel simbólico da Fundição Progresso nesse processo: um espaço historicamente central na Lapa, no coração do Rio, com potência de espalhar essa mudança de mentalidade para outras realidades.
REDAÇÃO PLANTE RIO:
Matéria de Luiza Villeroy
Fotos de Luiz Franco
Supervisão de Clara Lugão e Maria Clara Paiva